-1200x675.webp&w=3840&q=75)
Quarto mês de vida, consulta de puericultura. O bebê ganha peso direitinho, mama só no peito e não tem um único dente. Na hora de fechar o atendimento, a mãe faz a pergunta que quase todo pediatra já ouviu: "preciso limpar a gengivinha com gaze?".
O novo Guia de Saúde Oral Materno-Infantil da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), datado de 16 de junho de 2026, dá um rumo a essa conversa. Para o bebê sem dentes, principalmente quando mama exclusivamente no peito, o documento considera dispensável a higiene diária da boca. A rotina de escovação só começa quando o primeiro dente aparece.
O Guia, produzido pelo Grupo de Trabalho de Saúde Oral da SBP, também toma posição sobre o horário em que a escovação mais pesa, o momento ideal da primeira ida ao odontopediatra, o futuro da mamadeira e da chupeta e a idade em que o açúcar pode entrar no cardápio. Em vez de percorrer o texto página por página, vamos ver o que cada recomendação diz, qual o raciocínio por trás dela, o que muda no consultório e quais pontos ainda pedem cautela.
Um guia escrito para as famílias e para o pediatra
O Guia se organiza em três partes que acompanham o crescimento de uma família: a gestação, o bebê e a criança. A linguagem é pensada para pais e cuidadores, o material é ilustrado e gratuito, e a mensagem de abertura pede que ele seja repassado a outras famílias. Mas, declarado com todas as letras, o pediatra é um segundo destinatário. A SBP o convoca a recomendar a leitura do documento e a estimular consultas regulares com o odontopediatra desde cedo.
Afinal, o pediatra encontra o bebê muito antes de qualquer dentista e o reencontra várias vezes ao longo dos primeiros anos. Quem ocupa essa posição pode transformar uma dúvida solta em orientação preventiva. Além disso, o Guia supostamente será lido por famílias, e o pediatra precisa conhecer cada recomendação para traduzir o texto em prática.
💡 CURIOSIDADE A boca do bebê começa a ser construída antes do nascimento. Segundo o Guia, os germes dos dentes de leite surgem lá pela sexta semana de gravidez, e o do primeiro molar permanente aparece perto do quinto mês. Por isso, a alimentação e a saúde da gestante entram na conta, já que mudanças importantes nessa fase podem comprometer a formação dentária do bebê. |
Antes do primeiro dente: a boca que dispensa rotina de higiene
Comecemos pela orientação que mais deve gerar perguntas no consultório. O Guia afirma que, enquanto não há dentes na boca, não existe necessidade de higiene diária, e destaca os bebês em aleitamento materno exclusivo como o grupo em que isso fica ainda mais evidente. A rotina de higiene entra em cena quando os primeiros dentinhos despontam, com escovação e dentifrício fluoretado.
A cárie, como o próprio texto a descreve, nasce do desequilíbrio entre os microrganismos da boca, o açúcar da dieta e uma higiene inadequada, e o resultado é a perda de minerais do dente. Sem dente, não há superfície para desmineralizar. Ao mesmo tempo, limpar a gengiva com gaze ou fralda umedecida é um conselho frequente em materiais de divulgação para famílias, o que ajuda a explicar por que a pergunta da mãe é tão previsível.
Quando o primeiro dente chega, o guia pede escovação diária com pasta fluoretada, porque o flúor é um dos principais aliados contra a cárie. Como o bebê ainda engole boa parte do que vai à boca, a quantidade é minúscula (no máximo o que um grão de arroz cru ocuparia na escova). A escova ideal é a infantil, pequena o bastante para a boca do bebê e de cerdas muito macias. Se os dentinhos estiverem muito encostados e a escova não alcançar o espaço entre eles, o fio dental pode passar com suavidade.
Fase | Quantidade de pasta fluoretada | Quem faz a escovação |
|---|---|---|
Bebê, a partir dos primeiros dentes | No máximo um grão de arroz | Adulto responsável |
Criança que já sabe cuspir | No máximo um grão de ervilha | Adulto até os 8 anos de idade; depois, supervisão. Após os 10 anos, a criança costuma escovar sozinha |
Por que a escovação da noite é a que mais importa
Se existe um horário em que a escova não pode falhar, é o da noite. O Guia recomenda que a higiene do bebê acompanhe a rotina dos adultos da casa, ou seja, que aconteça depois do café da manhã e depois da última refeição do dia. Isso porque a saliva é uma proteção natural do dente, mas a produção dela cai na hora de dormir. Por isso, o bebê deve ir para a cama com os dentes limpos.
Para dimensionar o peso desse argumento, vale lembrar o que a saliva faz ao longo do dia. Ela lava restos de alimento, dilui e neutraliza ácidos produzidos pelas bactérias e fornece minerais que ajudam o esmalte a se recuperar. Durante o sono, esse sistema de proteção trabalha em ritmo mais lento. Qualquer resíduo que fique sobre o dente depois da última refeição enfrenta, portanto, uma defesa mais fraca durante a noite.
Para as crianças maiores, o Guia propõe escovar logo cedo pela manhã, depois do almoço e como último compromisso antes de ir para a cama, e reforça que o sono deve vir sempre depois da escovação, em qualquer idade. Em todos os recortes etários do documento, a escovação noturna está lá, o que diz bastante sobre a prioridade dela.
A primeira consulta com o odontopediatra
A regra do Guia recomenda marcar uma visita preventiva ao odontopediatra assim que surgir o primeiro dente de leite e, se até o primeiro aniversário nenhum dente tiver aparecido, vá mesmo assim. Vale o que vier primeiro.
A tabela de erupção apresentada no próprio Guia mostra que os incisivos centrais inferiores costumam surgir entre 6 e 10 meses, e os superiores, entre 8 e 12 meses. O texto também lembra que o ritmo de cada criança tem forte componente hereditário, mas pode sofrer influência de fatores sistêmicos e ambientais. Como a variação é grande, um prazo-limite (12 meses) impede que a espera por um dente tardio vire adiamento indefinido.
A ideia de levar o bebê tão cedo ao dentista é fruto de uma virada internacional. Uma revisão publicada em 2000 na American Family Physician lembra que, tradicionalmente, a primeira visita era marcada aos 3 anos, sob o argumento de que a criança estaria mais colaborativa e o tratamento seria mais eficiente. A American Academy of Pediatric Dentistry (AAPD) abandonou essa lógica e, em sua diretriz de periodicidade dos exames, orienta o primeiro exame no momento da erupção do primeiro dente e, no máximo, aos 12 meses.
O que acontece nessa primeira consulta? Segundo o Guia, o odontopediatra acompanha a erupção, protege os dentes de leite contra cárie, doenças periodontais e erosão e observa o desenvolvimento das arcadas, o que influencia a mordida do futuro. Quando o caso pede, o odontopediatra encaminha a família a outros profissionais. Há ainda o benefício discreto e valioso do bebê se acostumar aos poucos ao ambiente do consultório. E existe uma tarefa dos pais entre uma consulta e outra, que é contar os dentes. O documento lembra que algumas crianças têm dentes a mais ou a menos, e essa variação merece avaliação.
Mamadeira e chupeta: a ilusão do bico ortodôntico
Para entender por que o Guia torce o nariz para a mamadeira e para a chupeta, é preciso começar pelo que ele celebra (o aleitamento materno). O texto descreve o aleitamento como um treino completo para boca e face. O bebê precisa selar os lábios ao redor do mamilo, gerar a pressão que faz o leite sair e coordenar língua, lábios e arcadas. Esse esforço estimula músculos, ossos e articulações temporomandibulares e ainda reforça a respiração pelo nariz.
Nenhum bico de mamadeira ou de chupeta, nem mesmo os vendidos como ortodônticos, reproduz o formato do mamilo materno. Dessa premissa decorre a orientação de evitar os dois.
No caso da mamadeira, o Guia a reserva para situações em que o aleitamento é impossível por razões de saúde da mãe ou do bebê, com a equipe neonatal indicando o recurso mais adequado, que pode ser sonda, copo, colher ou a própria mamadeira. Quando for inevitável, o texto traz um pacote de cuidados:
- bico anatômico, proporcional à boca do bebê, sem aumentar o furo original;
- a mamada deve manter o mesmo clima de calma e aconchego do peito;
- o bebê nunca fica sozinho com a mamadeira, por risco de engasgo, e permanece o mais sentado possível;
- fórmula e leite não devem ser adoçados com açúcar nem mel, para não favorecer a cárie;
- bicos lavados e esterilizados após cada uso;
- a troca da mamadeira pelo copo deve ser combinada com o pediatra.
Segundo o Guia, a chupeta pode trazer efeitos indesejados, cedo ou mais tarde, para o crescimento da boca e para a posição futura dos dentes.
Açúcar
A última regra da lista é a mais fácil de enunciar e a mais difícil de cumprir. Não deve ser consumido pelo bebê nenhum alimento ou bebida com açúcar adicionado até os 2 anos de idade. O Guia também pede que a fórmula e o leite do bebê não sejam adoçados com açúcar nem mel, o que aumentaria o risco de cárie. Passado o segundo aniversário, a recomendação deixa de ser abstinência e vira uma política de "consumo inteligente", restringindo o açúcar e seguir as orientações dos demais profissionais que acompanham a criança.
Além da questão da cárie, alimentos processados e açucarados em excesso aparecem no texto como porta de entrada para obesidade e diabetes melito. Em outras palavras, o pediatra e o odontopediatra falam da mesma coisa com vocabulários diferentes, e a mensagem para as famílias ganha força quando os dois conversam.
O Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos, do Ministério da Saúde, publicado em 2019, já orienta a não oferecer açúcar nem preparações que o contenham até os 2 anos, e defende o leite materno exclusivo até os 6 meses e a continuidade da amamentação até os 2 anos ou mais. A recomendação da SBP, portanto, não inaugura uma exigência, apenas costura a saúde bucal a uma diretriz nutricional que o país já adota.
A partir dos 6 meses, a alimentação complementar deve privilegiar alimentos in natura e minimamente processados, avançando de texturas macias para mais firmes, no ritmo de cada criança. Com a dentição de leite completa, de 20 dentes, a criança deve mastigar alimentos de todas as consistências, o que treina a mastigação, favorece o desenvolvimento orofacial e prepara a fala. Dieta e dentição, afinal, se influenciam mutuamente.
Três hábitos de consultório ajudam a transformar essas condutas em rotina. O primeiro é entregar ou indicar o Guia às famílias, como o próprio texto sugere. O segundo é olhar a boca do bebê em toda consulta de puericultura, o que cabe no exame físico e permite flagrar cárie, gengivite, candidíase e outras alterações descritas no documento. O terceiro é perguntar quantos dentes a criança já tem, porque o número é um marcador simples para identificar possíveis dentes ausentes ou extras.
O que o Guia não resolve: limites e pontos de debate
Todo documento tem fronteiras, e vale mapear as do Guia para que o pediatra saiba onde precisa completar a orientação com julgamento clínico.
1. Chupeta e morte súbita: duas literaturas em tensão
Enquanto o Guia recomenda evitá-la por causa do crescimento da boca e do alinhamento dos dentes, as recomendações de sono seguro da American Academy of Pediatrics (AAP), atualizadas em 2022, orientam oferecer a chupeta nas sonecas e na hora de dormir como forma de reduzir o risco de morte súbita do lactente (Sudden Infant Death Syndrome, SIDS). A própria AAP faz a ressalva de que, nos bebês amamentados, a introdução deve esperar até que o aleitamento esteja bem estabelecido.
O Guia não menciona essa discussão. Isso não invalida a orientação odontológica, mas deixa nas mãos do pediatra o papel de pesar riscos e benefícios com a família.
2. Um guia para leigos, sem lista de referências
O texto afirma, em diferentes trechos, que estudos científicos apontam determinado efeito, mas não traz referências bibliográficas. Apenas as tabelas de erupção dentária indicam uma fonte, o site do Journal of the American Dental Association (JADA). Para um material de educação em saúde voltado a famílias, a escolha é compreensível. Para o médico, porém, o documento funciona mais como ponto de partida do que como fonte primária, o que vale especialmente para a recomendação de dispensar a higiene antes dos dentes.
3. E a mamada da noite?
O Guia insiste em que a criança durma com os dentes limpos, mas não detalha o que fazer com o bebê que já tem dentes e mama de madrugada. O texto também não discute como equilibrar a escovação noturna com uma mamada logo antes do sono. Sem regra explícita, a decisão fica por conta do bom senso clínico e do que a família consegue cumprir.
4. Orientar é uma coisa, viabilizar é outra
O Guia admite que adotar novos hábitos envolve fatores socioeconômicos e culturais difíceis de mudar, e pede compromisso das famílias e acompanhamento profissional. Mas não detalha como as famílias com dificuldade de acesso a um odontopediatra poderão seguir a recomendação de consulta precoce. Nesse vácuo, o pediatra acaba funcionando como principal canal de orientação preventiva.
Considerações finais
Reunidas, as orientações do Guia desenham uma linha do tempo simples. Sem dentes, a boca dispensa a rotina diária de higiene. Com o primeiro dente, entram a escova, a pasta com flúor em dose mínima e a consulta com o odontopediatra. A escovação da noite pesa mais que as demais, porque a saliva trabalha menos durante o sono. Mamadeira e chupeta ficam em segundo plano diante do peito, e o açúcar adicionado espera até o segundo aniversário.
O mérito do documento está em reunir odontologia, pediatria e nutrição em uma mensagem coerente, que conversa com a diretriz alimentar do Ministério da Saúde e com a tendência internacional de antecipar o primeiro contato com o dentista. As lacunas, por outro lado, são as de qualquer guia para leigos (poucas referências, silêncio sobre dilemas como chupeta e morte súbita e pouca atenção às barreiras de acesso). É nesse espaço que entra o julgamento do pediatra, capaz de transformar cada recomendação em uma conversa ajustada à realidade da família.
O Guia completo vale a leitura, até porque traz os capítulos de gestação e de infância, que ficaram de fora deste artigo.
Referências
1. Sociedade Brasileira de Pediatria. Grupo de Trabalho Saúde Oral. Guia de Saúde Oral Materno-Infantil. Coordenadora: Rocha Ruiz D. Rio de Janeiro: SBP; 2026.
2. Moon RY, Carlin RF, Hand I; Task Force on Sudden Infant Death Syndrome. Sleep-related infant deaths: updated 2022 recommendations for reducing infant deaths in the sleep environment. Pediatrics. 2022;150(1):e2022057990.
5. Brasil. Ministério da Saúde. Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. Brasília: Ministério da Saúde; 2019.
6. Vieira EM, Oliveira MG, Santos LFM, Bendo CB, Meneses MTV. Recomendações de higiene bucal na primeira infância. Ciclo de Estudos em Odontopediatria, Faculdade de Odontologia da UFMG; 2020.