
Todo final de ano, médicos do mundo inteiro esperam a mesma notícia: a atualização do GOLD, a Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease. O relatório de 2026 é, oficialmente, a sexta grande revisão do documento desde o primeiro lançamento, em 2001, construída sobre uma varredura de literatura que cobre publicações de janeiro de 2024 a julho de 2025. E essa edição mexe em algo bem importante: quantas crises um paciente com DPOC precisa acumular para ser tratado como alguém de alto risco.
Até pouco tempo atrás, a resposta era duas. Agora, uma única exacerbação moderada já é suficiente para mudar a conduta terapêutica desde a primeira consulta. Pode parecer um detalhe, mas essa mudança reflete uma virada conceitual: a DPOC deixou de ser medida apenas pelo volume de crises. Agora, cada crise é entendida como sinal de que a trajetória da doença já mudou para pior.
Neste artigo, vamos entender por que esse limiar caiu, o que mais mudou na forma de classificar a gravidade das exacerbações, como isso se traduz no consultório e no pronto-socorro, e quais críticas já começam a aparecer na literatura sobre essa atualização. Boa parte dessas mudanças, sobretudo os limiares numéricos e os novos critérios de classificação, é exatamente o tipo de detalhe que costuma cair em provas de residência, então vale a leitura atenta até o final.
Do ABCD ao ABE: uma classificação que já vinha em transformação
Para entender o que mudou em 2026, é preciso voltar um pouco no tempo. Desde 2011, o GOLD usa uma ferramenta combinada para classificar pacientes com DPOC, cruzando carga de sintomas com risco de exacerbação. Durante anos, essa ferramenta dividia os pacientes em quatro grupos, de A a D. Em 2023, o próprio GOLD simplificou o esquema: os grupos C e D foram fundidos em um único grupo, batizado de E, de "exacerbador", justamente para reforçar que o histórico de crises deveria pesar mais do que a intensidade dos sintomas na hora de decidir o tratamento.
Até a edição de 2025, porém, entrar no grupo E ainda exigia um histórico mais robusto de crises. O próprio relatório completo do GOLD 2026 confirma isso ao afirmar que o grupo E foi ampliado para passar a incluir também pacientes com apenas uma exacerbação moderada no ano anterior, o que deixa claro que, na versão vigente até então, essa mesma exacerbação isolada não era suficiente.
Esse corte anterior, de duas ou mais exacerbações moderadas ou pelo menos uma exacerbação grave com hospitalização no último ano, é o mesmo que o relatório ainda usa em outros trechos como referência para descrever um "exacerbador frequente". Quem tivesse apenas uma crise moderada, sem internação, continuava classificado nos grupos A ou B, dependendo da carga de sintomas.
Essa régua começou a incomodar parte da comunidade científica. Estudos observacionais mais recentes mostraram que uma única exacerbação moderada já é suficiente para elevar de forma relevante o risco de eventos futuros, incluindo declínio mais acelerado da função pulmonar e maior mortalidade. Em outras palavras, esperar por uma segunda crise para escalonar o tratamento significava, na prática, manter o paciente em um período de risco aumentado sem qualquer ajuste terapêutico. Foi esse acúmulo de evidência que abriu caminho para a mudança que o GOLD 2026 formaliza.
O que muda: o núcleo da atualização
A DPOC como doença multissistêmica
Antes de chegar à mudança do grupo E propriamente dita, vale entender o pano de fundo conceitual da atualização. O GOLD 2026 reforça, com mais ênfase do que nunca, que a DPOC não deve ser tratada como uma doença isolada nos pulmões. O documento organiza as comorbidades mais frequentes em cinco grandes clusters que, segundo o próprio GOLD, impactam os desfechos do paciente de forma independente:
- Cardiovascular: hipertensão, insuficiência cardíaca, doença coronariana, arritmias.
- Metabólico: diabetes, esteatose hepática, obesidade, doença do refluxo gastroesofágico.
- Mental: depressão, ansiedade, declínio cognitivo.
- Respiratório: câncer de pulmão, asma, distúrbios do sono, bronquiectasias.
- Perda de tecido de múltiplos órgãos: osteoporose, sarcopenia, insuficiência renal, anemia.
Essa visão sistêmica ajuda a explicar por que o GOLD decidiu ser mais rigoroso com o histórico de exacerbações: o próprio documento destaca que o risco de um evento cardiovascular maior aumenta de forma significativa durante e até um ano após uma exacerbação moderada ou grave. Tratar a crise respiratória como um evento isolado, sem consequências sistêmicas, deixou de fazer sentido diante da evidência disponível.
⚠️ ATENÇÃO Uma exacerbação de DPOC não é "só" uma piora respiratória temporária. Ela está associada a maior risco de infarto, AVC, arritmias e insuficiência cardíaca nos meses seguintes, além de acelerar o declínio da função pulmonar. |
A mudança central: a reclassificação do Grupo E
GOLD 2026 reduziu o limiar de exacerbações que define o grupo E: agora, basta uma exacerbação moderada ou grave no último ano para o paciente ser classificado como exacerbador, independentemente da carga de sintomas medida pela escala mMRC ou pelo CAAT (o antigo CAT).
Como era (até GOLD 2025) | Como ficou (GOLD 2026) |
|---|---|
≥ 2 exacerbações moderadas OU ≥ 1 exacerbação grave com hospitalização, no último ano | ≥ 1 exacerbação moderada ou grave, no último ano |
Na prática, isso significa que os sintomas deixaram de ser critério de exclusão para tratamento intensificado no grupo E. Um paciente com pouca dispneia e CAAT baixo, mas que teve uma única crise moderada no ano anterior, agora entra automaticamente no grupo de maior risco. Já os grupos A e B permanecem com a mesma lógica de sempre: zero exacerbações no último ano, diferenciados apenas pela intensidade dos sintomas.
Uma nova régua para medir a gravidade da crise: a proposta de Roma
A segunda mudança relevante caminha lado a lado com a primeira e diz respeito a como a própria gravidade da exacerbação passa a ser definida. Até então, classificar a gravidade de uma exacerbação costumava se apoiar no tipo de recurso de saúde utilizado. O GOLD 2026 adota um critério diferente, baseado na proposta de Roma, publicada por Celli e colaboradores em 2021, que usa parâmetros clínicos objetivos, e não o tratamento recebido, para classificar a crise.
Gravidade | Critérios |
|---|---|
Leve (padrão) | Dispneia por escala visual analógica (EVA) < 5; FR < 24 irpm; FC < 95 bpm; SpO2 ≥ 92% em ar ambiente (ou variação ≤ 3% da basal); PCR < 10 mg/L |
Moderada | Presença de pelo menos 3 dos 5 critérios acima alterados (EVA ≥ 5, FR ≥ 24, FC ≥ 95, SpO2 < 92% ou queda > 3%, PCR ≥ 10). Se colhida, a gasometria pode mostrar hipoxemia leve. |
Grave | Mesmos critérios da moderada, associados à acidose respiratória (PaCO2 > 45 mmHg e pH < 7,35) e/ou hipoxemia grave (PaO2 ≤ 60 mmHg) |
🎯 CAI NA PROVA A proposta de Roma é praticamente pedida para decorar. Se a questão trouxer valores de FR, FC, SpO2 e PCR e pedir para classificar a gravidade da exacerbação, é essa tabela que precisa vir à cabeça: menos de 3 critérios alterados sugere crise leve, 3 ou mais entram como moderada, e a presença de acidose respiratória associada é o que define a crise como grave. |
Impacto direto no tratamento inicial
Com o novo corte do grupo E, o algoritmo de tratamento inicial da DPOC estável ficou assim:
Grupo | Perfil | Tratamento inicial |
|---|---|---|
A | Zero exacerbações; mMRC 0-1, CAAT < 10 | Qualquer broncodilatador |
B | Zero exacerbações; mMRC ≥ 2, CAAT ≥ 10 | LABA + LAMA |
E | ≥ 1 exacerbação moderada ou grave, independente dos sintomas | LABA + LAMA; considerar LABA + LAMA + ICS se eosinófilos ≥ 300 células/µL |
Consequentemente, a contagem de eosinófilos ganhou ainda mais peso prático: ela passou a ser o principal critério para decidir se o paciente do grupo E deve, desde o início, receber a tripla terapia inalatória (broncodilatador duplo mais corticoide inalatório) ou se pode começar apenas com o broncodilatador duplo.
Uma nova frente terapêutica: biológicos entram de vez no jogo
Para pacientes que continuam exacerbando mesmo com terapia inalatória otimizada, o GOLD 2026 amplia o menu de opções na etapa de acompanhamento. Ao lado do já conhecido dupilumabe, indicado para pacientes com fenótipo de bronquite crônica, a atualização incorpora o mepolizumabe como nova alternativa biológica, que pode ser usado com ou sem bronquite crônica associada.
Impacto na prática clínica
Na consulta ambulatorial, o efeito mais imediato dessa atualização é a antecipação da escalada terapêutica. Um paciente que, até 2025, teria "direito" a uma segunda crise antes de sair do broncodilatador único ou da dupla broncodilatação, agora já sai da primeira consulta pós-exacerbação com indicação de LABA+LAMA, e possivelmente com indicação de dosagem de eosinófilos para decidir sobre a adição do corticoide inalatório.
No pronto-socorro, a proposta de Roma dá ao médico um critério mais objetivo e reprodutível para classificar a gravidade de uma crise, substituindo a antiga lógica de "onde/como o paciente foi tratado" por parâmetros clínicos mensuráveis à beira do leito.
⚠️ ATENÇÃO Corticoide sistêmico e antibiótico na exacerbação de DPOC: 5 dias para os dois, nem mais, nem menos, segundo o GOLD 2026. |
Críticas e controvérsias
Nem toda a comunidade de pneumologistas recebeu a mudança do grupo E de braços abertos. Um comentário publicado na revista Drugs poucos meses depois do lançamento do GOLD 2026 aponta que o impacto desse limiar mais baixo sobre o supertratamento da doença ainda é uma incógnita. Reduzir de duas para uma exacerbação o gatilho para terapia intensificada aumenta, por definição, o número de pacientes elegíveis a LABA+LAMA e, eventualmente, à tripla terapia, mas ainda faltam dados robustos sobre quanto desse aumento de tratamento se traduz de fato em melhores desfechos, e quanto representa apenas mais medicação e mais efeitos colaterais para o paciente.
Essa mesma publicação chama atenção para um problema metodológico antigo: os principais estudos que sustentam o benefício da tripla terapia recrutaram uma proporção grande de pacientes que já vinham em uso de corticoide inalatório antes da randomização, muitos já em tripla terapia. Isso levanta a hipótese de que parte do benefício observado nesses estudos possa refletir, ao menos em parte, um efeito de retirada do corticoide no grupo comparador, e não necessariamente um ganho real da tripla terapia em pacientes verdadeiramente virgens de tratamento.
Há também a questão de que nenhum dos três estudos sobre o mepolizumabe demonstrou ganho estatisticamente significativo em função pulmonar ou em qualidade de vida. Isso não invalida o uso do medicamento, mas sugere que seu benefício comprovado até o momento seja específico sobre a frequência de crises, um ponto importante na hora de calibrar a expectativa do paciente diante de uma terapia biológica injetável e de custo elevado.
Por fim, vale lembrar que os próprios critérios de Roma, apesar de mais objetivos, dependem de recursos nem sempre disponíveis em todos os cenários. PCR e gasometria arterial não são exames universalmente acessíveis em unidades básicas de saúde ou mesmo em prontos-socorros com menor estrutura, o que pode dificultar a aplicação sistemática dessa nova classificação fora de centros de referência, sobretudo em países de baixa e média renda, onde ocorrem cerca de 90% das mortes por DPOC no mundo.
Considerações finais
O GOLD 2026 consolida uma mudança de mentalidade que já vinha se desenhando havia alguns anos: encarar a exacerbação de DPOC não como um evento isolado a ser tolerado até se repetir, mas como um sinal precoce de risco que merece resposta terapêutica imediata. A reclassificação do grupo E, a adoção da proposta de Roma como régua de gravidade e a ampliação do arsenal biológico caminham juntas nessa direção.
Para quem quiser se aprofundar nos algoritmos completos de tratamento, vale a leitura do GOLD 2026 na íntegra, ou ao menos do Pocket Guide GOLD 2026.
Se esse formato de "como era x como ficou" ajuda nos estudos, vale conferir também os outros artigos do blog sobre atualizações recentes de diretrizes.
Referências
Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD). Global Strategy for the Diagnosis, Management, and Prevention of Chronic Obstructive Pulmonary Disease: 2026 Report (6ª revisão principal desde 2001, com literatura revisada até julho de 2025). Disponível em: www.goldcopd.org.
Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD). Pocket Guide to COPD Diagnosis, Management, and Prevention: 2026 Edition. Disponível em: www.goldcopd.org.
Celli BR, Fabbri LM, Aaron SD, Agusti A, Brook R, Criner GJ, et al. An Updated Definition and Severity Classification of Chronic Obstructive Pulmonary Disease Exacerbations: The Rome Proposal. Am J Respir Crit Care Med. 2021;204(11):1251-1258.
Cazzola M, Bajpai J, Calzetta L, Matera MG, Rogliani P. GOLD 2026: Transforming COPD Management with Early Intervention, Multi-dimensional Assessment, and Personalized Care. Drugs. 2026;86(5):581-597. doi: 10.1007/s40265-026-02303-3