
MEDSIMPLE Enamed se torna a "OAB da medicina". Proficiência passa a ser requisito para o CRM de novos ingressantes. 1 em 3 formandos não atingiu a proficiência em 2025. Só a faculdade não basta. |
Na estreia, em 2025, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) avaliou 39.258 concluintes de 351 cursos. Cerca de 67% alcançaram a proficiência, o que deixa aproximadamente 13 mil pessoas, uma em cada três, abaixo da linha de corte. Do lado das escolas, 107 cursos (cerca de 30%) fecharam o ano com conceito 1 ou 2, as faixas tidas como insatisfatórias.
O retrato incomodou o bastante para mudar a natureza do exame. Em 19 de junho de 2026, o governo federal editou a Medida Provisória (MP) nº 1.370, que estabeleceu a proficiência no Enamed como requisito para o registro profissional dos estudantes que ingressarem na graduação a partir dessa data.
Nos próximos parágrafos, você verá de onde o exame veio, o que muda com as três etapas, como a nota é construída (e por que 60 pontos não são 60 acertos), o que ainda está em aberto e onde baixar as provas de 2026.
De onde o Enamed vem
Avaliar o fim do curso médico não é ideia nova no Brasil. Na própria seção de iniciativas descontinuadas do Inep repousam o Exame Nacional de Cursos, o antigo Provão, e a Avaliação Nacional Seriada dos Estudantes de Medicina (Anasem). O Enamed, criado em 2025 como adaptação do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) para a medicina, é a tentativa mais recente e a primeira a ganhar força de lei sobre o registro profissional.
A pressa tem um pano de fundo numérico. Dados do Ministério da Educação (MEC) reproduzidos no parecer da comissão mista mostram que os cursos de medicina saltaram de 181 para 467 entre 2010 e 2024, uma alta de 158%, e que, em 2024, 73,3% das matrículas estavam em instituições privadas. Quando o Enamed 2025 passou todos pela mesma régua, a diferença apareceu: proficiência média de 83,1% nas federais e de 86,6% nas estaduais, contra 57,2% nas escolas privadas lucrativas.
💡 Curiosidade Nas 13 graduações médicas de origem judicial avaliadas no Enamed 2025, apenas 30,8% alcançaram desempenho satisfatório. Para comparação, o índice foi de 69,4% entre os 350 cursos com conceito divulgado e de 95% nas instituições públicas federais. |
Depois dos resultados de 2025, 99 cursos de Medicina vinculados ao Sistema Federal de Ensino (que abrange instituições públicas federais e instituições privadas) entraram em processo de supervisão, com medidas escalonadas conforme o risco, que vão de restrições ao Fies à suspensão de novos ingressos nos casos mais graves. Esse número corresponde a parte dos 107 cursos que receberam conceitos 1 ou 2 no levantamento nacional. Além disso, foi deslocada parte do peso da escola para o estudante. A faculdade continua sendo avaliada, mas o registro passa a depender também do desempenho individual.
O que muda: as novas regras, uma a uma
O texto aprovado preserva a espinha dorsal da MP, mas altera pontos importantes. Veja os sete que mais afetam a vida de quem estuda (ou vai estudar) medicina.
1. De prova única a trilha com três paradas
A MP original previa duas avaliações, no quarto e no sexto ano. O texto aprovado pelo Congresso acrescentou uma terceira avaliação, no início da graduação, estabelecendo uma trilha com três etapas obrigatórias: ao fim do 4º semestre (segundo ano), do 8º semestre (quarto ano, antes do internato) e do 12º semestre (sexto ano). Essa alteração ainda aguarda sanção presidencial.
2. Duas edições por ano, a partir de 2027
Hoje o Enamed é anual. A periodicidade semestral está prevista na MP nº 1.370/2026 e é mantida pelo texto aprovado pelo Congresso. A previsão é de duas edições regulares por ano a partir de 2027. A mesma prova serve ainda de etapa teórica do Revalida e de prova objetiva para a residência de acesso direto. Em outras palavras, um único exame passa a servir para permitir a obtenção do CRM, revalidação de diplomas estrangeiros, avaliação das escolas médicas e ingresso na residência médica.
3. A conta da nota tem duas camadas
Camada 1: a nota de cada prova
Cada edição reúne 100 questões objetivas, com quatro alternativas e uma só correta. A pontuação não é apenas a soma dos acertos. O Inep usa a Teoria de Resposta ao Item (TRI), modelo estatístico em que cada acerto vale mais ou menos conforme o perfil da questão, a começar pela dificuldade. Por isso, duas pessoas com o mesmo número de acertos podem receber notas diferentes.
O nível Proficiente começa em 60 pontos. Esse corte nasceu na edição de 2025, definido pelo Inep com o método de Angoff modificado combinado a análises pela TRI (Nota Técnica Inep nº 19/2025), em que especialistas julgam o desempenho esperado de um participante no limiar da competência. A régua não muda de uma edição para outra, mas quantos acertos levam a 60 depende de quão difíceis foram as questões de cada prova.
💡 Curiosidade Conferir o gabarito não revela a sua nota. Como ela passa pela TRI, só aparece junto com o resultado definitivo, este ano previsto para 4 de dezembro de 2026. |
Camada 2: a nota final da graduação
No texto aprovado pelo Congresso, o resultado final do estudante será calculado pela média de desempenho acumulado das três etapas, com peso maior para a última. Essa mudança ainda depende de sanção presidencial. Os pesos exatos e a nota mínima de proficiência caberão à Comissão Nacional de Avaliação da Formação Médica, que ainda não os divulgou. O boletim detalhado de cada etapa pertence ao estudante.
🧮 Exemplo ilustrativo (não oficial) Só para enxergar o mecanismo, imagine pesos 1, 1 e 2. Quem tira 52, 58 e 66 chega a (52 + 58 + 2 x 66) / 4 = 60,5: acima do corte, mesmo tendo ficado abaixo dele nas duas primeiras etapas. Já 66, 60 e 54 resulta em (66 + 60 + 2 x 54) / 4 = 58,5: abaixo, apesar do bom começo. Os pesos reais ainda não existem e o exemplo serve apenas para mostrar que trajetória e desfecho pesam de formas diferentes. |
4. Quem entra na regra, e quando
A exigência de proficiência vale para quem ingressou na graduação a partir de 19 de junho de 2026. Quem já estava matriculado antes segue as regras da época do ingresso, e médicos com diploma reconhecido obtido antes da MP ficam fora do exame. Como o curso dura em média seis anos, o Inep calcula que os primeiros impedidos de exercer por falta de proficiência só apareçam a partir de 2033.
Perfil | O que muda |
|---|---|
Médico com diploma anterior a 19/06/2026 | Nada. Não precisa fazer o Enamed para exercer, mas pode usar a prova para disputar a residência de acesso direto. |
Estudante que já cursava medicina antes de 19/06/2026 | A proficiência não é condição para o CRM. Pela MP vigente, a primeira nota obtida na segunda etapa (avaliação do sexto ano) consta no histórico escolar. O texto aprovado pelo Congresso altera essa previsão para a primeira média acumulada das três etapas. |
Quem ingressou a partir de 19/06/2026 | Cumpre as três etapas e só obtém o registro com nível proficiente no resultado final. |
Candidato à residência de acesso direto | A nota do Enamed serve para disputar o Enare, e só disputa vaga quem é proficiente. |
Médico com diploma estrangeiro | A parte teórica do Revalida é substituída pela prova do Enamed e a avaliação prática segue valendo. |
5. Quem não atinge o corte
Segundo o governo, não atingir a proficiência não tira o direito de se formar, mas trava o registro. Pela MP vigente, o egresso pode refazer a segunda etapa nas edições seguintes. Já o texto aprovado pelo Congresso prevê a possibilidade de refazer a terceira etapa, com recálculo da média acumulada, sem limite de tentativas informado, e a média é recalculada a cada nova prova.
O texto de conversão cria ainda a Inscrição de Egresso de Medicina (IEM), que o formado sem proficiência pode pedir ao CRM e que não equivale a registro médico. Quem a possui não pode atender pacientes, nem sob supervisão, assinar receitas, atestados ou laudos, ou ocupar cargo destinado a médico. O que sobra são atividades técnico-científicas sob supervisão: educação médica, pesquisa e apoio administrativo, por exemplo.
6. A faculdade na vitrine
Cada curso ganha uma nota por ano, definida pelo percentual de alunos que chegam proficientes à última etapa, e nota baixa dispara um processo de supervisão. O MEC mantém os resultados por instituição num portal público, e as faculdades precisam exibir, em seus sites e materiais de divulgação, o desempenho das três últimas edições, para que o candidato compare antes de escolher onde estudar.
As sanções previstas pelo Inep vão da suspensão de vagas ligadas ao Fies e ao Prouni e da redução de vagas autorizadas até a suspensão de vestibulares e, na reincidência, o cancelamento da autorização do curso.
⚠️ Atenção Para fundamentar supervisão e medidas cautelares, a nova lei só aceita resultados de provas feitas depois que ela entrar em vigor. |
As duas provas de 2026: o que aconteceu e onde baixar
Em 2026 o Enamed teve duas aplicações, mas não no desenho semestral que chega em 2027. A aplicação regular aconteceu em 13 de setembro, em todos os estados e no Distrito Federal. A reaplicação, em 18 de outubro, ficou restrita a quem teve o pedido aprovado pelo Inep por falhas de logística na prova de setembro ou por uma doença infectocontagiosa prevista no edital.
Data | Marco |
|---|---|
13/09/2026 | Aplicação regular |
14 e 15/09 | Pedidos de reaplicação |
15/09 | Cadernos e gabarito preliminar divulgados (recursos de 15 a 17/09) |
18/10 | Reaplicação |
20/10 | Caderno e gabarito preliminar da reaplicação (recursos de 20 a 22/10) |
04/12/2026 | Gabarito definitivo, resultado dos recursos e notas finais |
Baixe as provas direto do site do Inep
Os arquivos ficam no portal do Inep, de acesso aberto. Na hora de conferir o gabarito, use o do caderno que você marcou no cartão-resposta.
Página oficial de provas e gabaritos do Enamed
Impacto na prática: e daí, o que muda para mim?
A resposta depende de onde você está na linha do tempo.
- Já é médico(a): o registro não depende do Enamed. A prova segue disponível como caminho para a residência.
- Entrou na faculdade antes de 19/06/2026: não precisa de proficiência para o CRM, mas pode usar a nota no ENARE.
- Entrou depois: terá três paradas e uma média acumulada. Como os pesos ainda não saíram, a prudência manda não tratar nenhuma etapa como ensaio.
- Prepara-se para a residência de acesso direto: a prova é o Enamed, e vale o seu melhor resultado proficiente dentre as edições válidas.
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Críticas e controvérsias
Prova de proficiência resolve o problema?
O setor de ensino privado contesta a premissa. Em nota à imprensa de janeiro de 2026, a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) afirmou que a população não corria perigo e que um exame de proficiência não era a saída. O governo responde que, com dois em cada três concluintes proficientes e uma expansão acelerada de vagas, a sociedade precisa de um filtro individual de qualidade. Os dois lados partem do mesmo número, 67%, e chegam a conclusões opostas.
O que ainda é incógnita
- Os pesos de cada etapa e a nota mínima de proficiência, que dependem da Comissão Nacional.
- O calendário das edições semestrais.
- A regulamentação da IEM pelo CFM.
- Possíveis vetos na sanção presidencial.
⚠️ Atenção Até 31 de outubro de 2026, o texto de conversão da MP nº 1.370/2026, aprovado pelo Congresso, ainda aguarda sanção presidencial. A MP original permanece em vigor, enquanto as alterações introduzidas pelo texto aprovado dependem de sanção e publicação. Vetos a trechos específicos são possíveis. Até lá, vale o texto original da MP. |
Considerações finais
Em pouco mais de um ano, o Enamed percorreu o caminho que vai de instrumento de avaliação de cursos a condição para o registro profissional. Para quem já se formou, quase nada muda. Para quem está no meio do caminho, o exame vira ao mesmo tempo prova do histórico e passaporte para a residência. Para quem ingressou depois de 19 de junho de 2026, será uma das provas mais decisivas da graduação.
MEDSIMPLE Sua aprovação começa hoje. Enamed agora é lei. Sem proficiência, sem CRM. Só a faculdade não basta. Estude o que cai, pratique como na prova e monte o seu cronograma na MEDsimple. |
Referências
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MANTENEDORAS DE ENSINO SUPERIOR (ABMES). Desinformação sobre o Enamed atinge estudantes e instituições. Não há risco para a saúde pública e exame de proficiência não é a solução. Nota à imprensa, 21 jan. 2026. Disponível em: https://abmes.org.br/noticias/detalhe/5182. Acesso em: 31 out. 2026.
BRASIL. Congresso Nacional. Medida Provisória nº 1.370, de 19 de junho de 2026 (tramitação e texto). Disponível em: congressonacional.leg.br.
BRASIL. Congresso Nacional. Projeto de Lei de Conversão nº 14, de 2026, referente à Medida Provisória nº 1.370/2026. Autógrafo aprovado em 16 out. 2026. Disponível em: https://www.congressonacional.leg.br/materias/medidas-provisorias/-/mpv/174819. Acesso em: 31 out. 2026.
INEP. Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed): perguntas frequentes. Brasília: Inep, 2026 (atualizado em 02/09/2026). Disponível em: gov.br/inep.
INEP. Enamed: provas e gabaritos 2026. Brasília: Inep, 2026. Disponível em: gov.br/inep.
INEP. Nota Técnica Inep nº 19/2025: estimativa do desempenho esperado no Enamed 2025 pelo Método de Angoff Modificado em combinação com a TRI. Diário Oficial da União, 31 dez. 2025. Disponível em: abmes.org.br.
INEP. Edital nº 146, de 10 de setembro de 2026: reaplicação do Enamed 2026. Disponível em: abmes.org.br.
INEP. Enamed 2026: Inep divulga gabarito preliminar da reaplicação da prova. Notícia, 20 out. 2026. Disponível em: gov.br/inep.
G1. Câmara aprova medida que prevê obrigatoriedade de três provas durante o curso de medicina. Paloma Rodrigues, 15 out. 2026.