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Calendário Nacional de Vacinação (Atualizações 2026): o que mudou — e o que isso significa na prática

Calendário Nacional de Vacinação Atualizado: fim das gotinhas da pólio, HPV em dose única, reforço com MenACWY, ampliação do rotavírus e incorporação das vacinas contra dengue e VSR no SUS

Imagem promocional com fundo azul escuro contendo, à esquerda, o texto em destaque “CALENDÁRIO VACINAL” em letras brancas grandes e, abaixo, “ATUALIZAÇÕES 2026” em amarelo. À direita, há uma ilustração de uma lâmpada antropomorfizada caracterizada como médica, com óculos redondos, bochechas rosadas e expressão sorridente. Ela veste jaleco branco com estetoscópio no pescoço, segura um frasco escrito “vacinas” em uma das mãos e um pequeno calendário na outra.

O calendário vacinal do Sistema Único de Saúde (SUS) não é um documento estático. Ele é revisado e atualizado à medida que surgem novas evidências científicas, novos imunizantes com desempenho superior e oportunidades de ampliar a cobertura para populações antes desprotegidas. Entre 2024 e 2025, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) passou por um ciclo denso de revisões: seis vacinas tiveram seus esquemas ou indicações modificados — algumas de forma sutil, outras com mudanças mais expressivas.

Para qualquer médico que atende crianças, adolescentes ou gestantes, conhecer essas mudanças não é opcional. Então, para facilitar, este artigo organiza cada uma das atualizações, explica o que havia antes, o que muda agora e o que isso significa na prática.

1. Poliomielite: a saída definitiva da VOP

Durante décadas, o Brasil usou dois imunizantes em sequência para vacinar crianças contra a poliomielite: a VIP (Vacina Inativada Poliomielite, injetável) nas três primeiras doses da série primária, e a VOP (Vacina Oral Poliomielite — as famosas gotinhas) para os dois reforços. Graças às campanhas de imunização, o último caso de poliomielite pelo vírus selvagem no Brasil foi registrado em 1989.

A lógica histórica da vacina oral contra a poliomielite (VOP) era simples: por ser administrada via oral, ela estimulava a imunidade humoral e, principalmente, a imunidade das mucosas intestinais, contribuindo para a interrupção da transmissão fecal-oral e favorecendo a imunidade de rebanho. Entretanto, o vírus atenuado contido na VOP pode, em circunstâncias muito raras, sofrer mutações durante a replicação no intestino e recombinar-se, recuperando características de neurovirulência — o que pode resultar em casos de poliomielite associada à vacina (VAPP) e em poliovírus derivados de vacina em circulação (cVDPV). Com o avanço da erradicação do poliovírus selvagem, especialmente em contextos de baixíssima ou nenhuma circulação do vírus selvagem, o balanço entre risco e benefício passou a favorecer o uso de vacinas inativadas (VIP), já que estas não carregam risco de reversão à neurovirulência.

Desde 4 de novembro de 2024, o esquema vacinal contra a poliomielite no SUS é exclusivo com VIP. As duas doses de reforço com VOP foram substituídas por uma única dose de reforço com VIP aos 15 meses

🔑 ESQUEMA ATUALIZADO — POLIOMIELITE

2 meses → VIP (1ª dose)

4 meses → VIP (2ª dose)

6 meses → VIP (3ª dose)

15 meses → VIP (reforço único — substituiu os dois reforços orais anteriores)

Na prática clínica, pais acostumados com as gotinhas podem estranhar a mudança. A orientação é clara: após três doses, a VIP confere proteção sérica de 99% a 100%. A retirada da VOP diminui, não aumenta, o risco individual. 

É interessante lembrar que, mesmo com a mudança, nosso querido Zé Gotinha permanece como mascote das campanhas de imunização do PNI, agora mobilizando o público para outras doenças imunopreveníveis.

2. Rotavírus: mais tempo, mais acesso

O rotavírus ainda responde por parcela expressiva das hospitalizações por diarreia em lactentes no Brasil. A vacina oral foi incorporada ao calendário em 2006, mas seu uso era limitado por janelas de aplicação estreitas. Essa rigidez gerava perdas reais, evidenciadas pelas coberturas vacinais abaixo da meta de 90% nos últimos anos: lactentes que faltavam à consulta, prematuros ou crianças de regiões de difícil acesso muitas vezes ficavam sem a vacina.

A Nota Técnica nº 193/2024-CGICI/DPNI/SVSA/MS, embasada nas recomendações da OMS publicadas em 2021, revisou esses limites com foco em ampliar o acesso a crianças não vacinadas nas idades recomendadas. As janelas foram substancialmente ampliadas:

Antes

Depois

1ª dose: de 1m15d até 3m15d

1ª dose: de 1 mês e 15 dias até 11 meses e 29 dias

2ª dose: de 3m15d até 7m29d

2ª dose: de 3 meses e 15 dias até 23 meses e 29 dias

Intervalo mínimo entre as doses: 30 dias (mantido)

O impacto para a rotina é significativo. Crianças que perderam a janela antiga têm agora uma segunda chance dentro de um período muito mais amplo. A vacinação continua sendo recomendada prioritariamente nos 2 e 4 meses de vida — a ampliação é uma rede de segurança, não uma alteração do esquema ideal.

3. Meningocócica ACWY: proteção antecipada

A meningite bacteriana é uma das doenças mais temidas na pediatria pela velocidade com que evolui e pelas sequelas permanentes que pode deixar. O sorogrupo C era historicamente o principal responsável pelos casos graves em crianças pequenas no Brasil, e o calendário já incluía a MenC aos 3 e 5 meses, com reforço aos 12 meses.

No entanto, os sorogrupos W e Y ganharam participação crescente no panorama brasileiro, e a vacina MenC não oferece cobertura contra esses sorogrupos. A vacina MenACWY, que protege contra quatro sorogrupos (A, C, W e Y), estava restrita ao calendário do adolescente.

A partir de 1º de julho de 2025, o Ministério da Saúde passou a ofertar a vacina MenACWY no SUS para crianças de 12 meses. O reforço que antes era feito com MenC passa a ser administrado com a MenACWY. As doses primárias — aos 3 e 5 meses — permanecem com MenC. A medida está amparada na Nota Técnica nº 77/2025-CGICI/DPNI/SVSA/MS e nas Diretrizes para o Enfrentamento das Meningites até 2030.

🔑 ESQUEMA ATUALIZADO — MENINGOCÓCICA

3 meses → MenC (mantida)

5 meses → MenC (mantida)

12 meses → MenACWY (substituiu o reforço com MenC)

11–14 anos → MenACWY (mantida)

Ponto prático: crianças que já completaram o esquema anterior com reforço de MenC aos 12 meses não precisam receber a ACWY agora. A atualização vale para quem ainda não fez o reforço do primeiro aniversário. Caso a criança tenha perdido a dose dos 12 meses, terá a oportunidade de ser vacinada com MenACWY até 4 (quatro) anos, 11 meses e 29 dias.

4. HPV: a aposta na dose única

Desde a incorporação da vacina HPV quadrivalente ao calendário do SUS em 2014, o Brasil trabalhava com esquemas de duas ou três doses. As coberturas vacinais, porém, nunca alcançaram o patamar desejado: para meninas, a 1ª dose chegava a 76%, mas a 2ª não passava de 60%; entre meninos, a 1ª dose atingia 42% e a 2ª apenas 27%.

Evidências robustas dos últimos anos demonstraram que uma única dose da vacina HPV gera proteção comparável ao esquema de duas ou três doses em adolescentes sem histórico de infecção. Estudos na Costa Rica, na Índia, no Quênia e na Tanzânia mostraram eficácia sustentada por pelo menos 10 anos. Com base nesses dados, OMS (2022) e OPAS (2023) recomendaram o esquema de dose única para pessoas de 9 a 14 anos sem imunossupressão.

O Ministério da Saúde adotou essa recomendação em abril de 2024, por meio da Nota Técnica nº 41/2024-CGICI/DPNI/SVSA/MS. A estratégia permite, com o mesmo número de doses disponíveis, praticamente dobrar a capacidade de imunização populacional, ampliar a cobertura vacinal e fortalecer a imunidade coletiva — medida que contribui de forma decisiva para acelerar a eliminação do câncer do colo do útero no país.

Antes

Depois

2 doses (0 e 6 meses) para meninas e meninos de 9 a 14 anos

1 dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos

3 doses para imunossuprimidos e vítimas de violência sexual

3 doses mantidas para imunossuprimidos e situações especiais

Busca ativa: adolescentes até 19a11m29d não vacinados podem receber dose única de resgate

5. Dengue: duas vacinas, dois públicos

A dengue ocupa um lugar singular neste ciclo de atualizações. Não se trata da reformulação de um esquema que já existia, nem da ampliação de uma janela de aplicação. Trata-se de um marco: em 2024, o Brasil se tornou o primeiro país do mundo a ofertar vacina contra a dengue no sistema público de saúde. E o que tornou isso possível foi, em grande medida, a chegada de uma vacina que não exigia soropositividade prévia — limitação que havia inviabilizado o uso da Dengvaxia® em larga escala no setor público anos antes. Hoje o calendário já conta com duas vacinas contra a dengue, destinadas a públicos distintos e com lógicas diferentes de implementação.

Qdenga® (TAK-003) — para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos

A primeira vacina a entrar no calendário foi a Qdenga®, um imunizante de vírus vivo atenuado tetravalente — ou seja, capaz de induzir resposta imune contra os quatro sorotipos do dengue (DENV-1 a DENV-4). Como dito antes, não exige soropositividade prévia, o que viabilizou sua incorporação ao SUS sem a necessidade de triagem sorológica. O esquema consiste em 2 doses com intervalo de 3 meses, indicada para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, e está disponível nos mais de 5 mil municípios do país.

Butantan-DV — vacina nacional, dose única, para 15 a 59 anos

Mais recentemente, em janeiro de 2026, o cenário ganhou um novo capítulo. O Ministério da Saúde iniciou uma estratégia piloto com a Butantan-DV, desenvolvida pelo Instituto Butantan — a primeira vacina 100% nacional contra a dengue e, ao mesmo tempo, o primeiro imunizante de dose única contra a dengue no mundo. A estratégia começou nos municípios-piloto de Maranguape (CE), Nova Lima (MG) e Botucatu (SP), imunizando pessoas de 15 a 59 anos. Os estudos clínicos indicam eficácia global de 74%, com redução de 91% dos casos graves e proteção de 100% contra hospitalização por dengue. A ampliação nacional está prevista conforme a disponibilidade de doses.

Vacina

Características principais

Qdenga® (Takeda)

2 doses, intervalo 3 meses · 10 a 14 anos · disponível em todos os municípios

Butantan-DV

Dose única · 15 a 59 anos · estratégia piloto em expansão · 1ª vacina nacional

6. VSR: proteção que começa antes do nascimento

O vírus sincicial respiratório (VSR) é a principal causa de bronquiolite em lactentes e uma das principais causas de hospitalização no primeiro ano de vida. A vacina materna representa proteção passiva: uma dose administrada à gestante transfere anticorpos ao feto por via transplacentária, e o recém-nascido já chega ao mundo com defesa prévia.

O Calendário Nacional de Vacinação 2026 consolidou essa indicação: agora, todas as gestantes passam a receber 1 dose da Vacina Vírus Sincicial Respiratório (VVSR) a partir da 28ª semana de gestação (atualizado em 30 de janeiro de 2026). A recomendação é de 1 dose a cada gestação, pelo mesmo mecanismo já familiar com a dTpa e a influenza gestacional. Quanto mais precocemente na janela oportuna, maior o benefício para o bebê.

🔑 VACINA VSR MATERNA

Esquema: 1 dose a cada gestação

Momento: a partir da 28ª semana de gestação

Via: intramuscular (0,5 mL) 

7. O que ainda gera debate

Dose única de HPV: eficácia de longo prazo ainda em construção

A mudança é apoiada por evidências robustas de até 10 anos de seguimento. No entanto, dados em todas as faixas etárias e para todos os tipos oncogênicos ainda estão sendo consolidados. Uma parcela de especialistas defende cautela antes da adoção universal, especialmente quanto à necessidade de eventual reforço. O MS recomenda monitoramento contínuo das coberturas e da prevalência de HPV.

VOP: transição gradual e risco de lacunas

A retirada da VOP é tecnicamente justificada e contou com aval da CTAI, OMS e OPAS. No entanto, exige monitoramento rigoroso: em países com coberturas vacinais baixas, a transição gerou ressurgência de cVDPV — paradoxalmente gerados pela VOP circulando em populações insuficientemente imunizadas. O Brasil precisa manter coberturas altas da VIP. Em 2023, a cobertura para poliomielite alcançou 86,55%, ainda abaixo da meta de 95%.

8. Considerações finais

O ciclo de atualizações de 2024–2025 reflete um momento de maturidade do Programa Nacional de Imunizações: não se trata apenas de acrescentar vacinas ao calendário, mas de aprimorar esquemas existentes com base em evidências mais recentes e de expandir a proteção para populações que antes ficavam à margem.

Vacina

O que mudou

Público-alvo

Poliomielite (VIP)

Esquema 100% VIP; reforço único aos 15m (antes: 2 reforços orais VOP)

Lactentes (2, 4, 6 e 15 meses)

Rotavírus

Janelas ampliadas: 1ª dose até 11m29d; 2ª dose até 23m29d

Lactentes até 23m29d

Meningocócica ACWY

Reforço dos 12 meses substituído de MenC para MenACWY 

Crianças a partir de 12 meses

HPV

Antes, 2 doses → Agora, dose única; resgate possível

Meninas e meninos de 9 a 14, resgate até 19a11m29d

Dengue (Qdenga®)

Incluída recentemente no SUS - 2 doses, intervalo 3 meses, sem exigência de soropositividade

10 a 14 anos

Dengue (Butantan-DV)

Incluída recentemente no SUS - Dose única, sem exigência de soropositividade

15 a 59 anos (piloto)

VSR (materna)

Incluída recentemente no SUS - Dose única a cada gestação 

Todas as gestantes (≥28 semanas)

Referências

  1. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 41/2024-CGICI/DPNI/SVSA/MS. Brasília, março de 2024.
  2. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 77/2025-CGICI/DPNI/SVSA/MS. Brasília, junho de 2025.
  3. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 193/2024-CGICI/DPNI/SVSA/MS. Brasília, dezembro de 2024.
  4. Ministério da Saúde. Informe Técnico: Retirada da vacina poliomielite 1 e 3 (atenuada) (VOPb) e adoção do esquema exclusivo com vacina poliomielite 1, 2 e 3 (inativada) (VIP). Brasília, 2024. ISBN 978-65-5993-685-4.
  5. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação 2026. Atualizado em 30 de janeiro de 2026. CGICI/DPNI/SVSA/MS.
  6. Ministério da Saúde. Ministério da Saúde inicia estratégia piloto de vacinação contra a dengue com imunizante 100% nacional. Publicado em 17 de janeiro de 2026.
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