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A SOP virou SOMP — entenda o que isso muda

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) passou a se chamar Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). A mudança busca refletir melhor a natureza endócrina e metabólica da condição. Critérios diagnósticos e tratamento permanecem inalterados.

Miniatura com fundo azul-escuro em degradê. À esquerda, em letras grandes e brancas, está escrito: “SOP ou SOMP?”. Logo abaixo, em letras amarelas destacadas, aparece o texto “ATUALIZAÇÕES 2026”.  À direita, há uma personagem em estilo 3D semelhante a um emoji amarelo vestido como médica, usando jaleco branco, estetoscópio e óculos redondos grandes. A personagem apresenta expressão de dúvida, com sobrancelhas arqueadas e boca levemente curvada para baixo. Uma das mãos está apoiada no rosto em gesto de reflexão.  Ela segura um modelo anatômico do sistema reprodutor feminino, com destaque para os ovários e o útero, reforçando o tema relacionado à síndrome dos ovários policísticos. Acima da personagem há um grande ponto de interrogação amarelo, enfatizando a dúvida entre as siglas SOP e SOMP.

Imagine carregar um diagnóstico cujo nome descreve algo que você, muitas vezes, nem sequer tem. Essa foi a realidade de milhões de mulheres diagnosticadas com “Síndrome dos Ovários Policísticos”: uma condição batizada a partir de um achado ultrassonográfico que, para começo de conversa, não representa cistos patológicos e sequer aparece em todas as pacientes.

Em maio de 2026, um consenso global publicado no The Lancet formalizou o que muitos especialistas já defendiam há anos: a SOP passou a se chamar Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP)

Neste artigo, você vai entender por que o nome antigo era problemático, como o novo foi construído e o que isso significa, na prática, para o seu consultório e para as suas pacientes.

1. O nome que sempre foi problemático

Há uma grande ironia na história da SOP: ao longo das décadas, a ciência que descreve a síndrome foi ficando cada vez mais precisa, mas o nome ficou parado no tempo. O termo “policístico” remete a múltiplos cistos nos ovários, porém o que o ultrassom realmente captura são folículos pequenos que interromperam o amadurecimento, sem qualquer característica cística em sentido patológico. 

O problema vai muito além da semântica, já que uma nomenclatura centrada nos ovários transforma uma condição sistêmica em algo que parece localizado, quase como se fosse um assunto exclusivamente ginecológico. Na realidade, estamos diante de uma síndrome com raízes endócrinas profundas, expressão metabólica ampla e impactos que se estendem da adolescência até muito depois da menopausa. Resistência insulínica, hiperandrogenismo, risco cardiometabólico elevado, disfunção do eixo hipotálamo-hipofisário: nada disso parece evidente a partir de numa nomenclatura fundada num achado ultrassonográfico impreciso.

Em 2012, o National Institutes of Health dos Estados Unidos já recomendava formalmente a mudança de nomenclatura. Por 14 anos, a recomendação ficou engavetada pela ausência de um processo global coordenado. Afinal, sem isso, qualquer nome proposto soaria arbitrário e não teria legitimidade para ser adotado amplamente.

2. Como nasce um novo nome para uma doença

Renomear uma condição médica vai muito além de substituir palavras num documento oficial. É uma operação que reescreve a forma como clínicos, pesquisadores, sistemas de saúde e pacientes entendem o que estão vivendo. Por essa razão, o processo que culminou na SOMP levou cerca de dois anos, foi financiado pelo Conselho Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da Austrália e envolveu uma arquitetura metodológica que merece ser conhecida.

O ponto de partida foi estabelecer princípios que qualquer candidato ao novo nome precisaria respeitar: precisão científica, clareza na comunicação, ausência de estigma, adequação cultural e viabilidade prática de implementação. A partir daí, duas rodadas de pesquisas globais foram conduzidas, sendo coletadas 14.360 respostas de pacientes e profissionais de saúde de todas as regiões do mundo, disponibilizadas em inglês, mandarim, alemão, persa e malaio.

Em paralelo, dois workshops online com cerca de 90 participantes de múltiplos continentes colocaram os termos sob avaliação coletiva. Combinações foram testadas, implicações culturais foram avaliadas e prioridades foram decididas por votação. Uma exigência não negociável era que pacientes com a síndrome co-presidissem os grupos de trabalho, com voto real e não como presença simbólica.

Entre as histórias mais curiosas do processo está o destino do nome Endocrine Metabolic Ovulatory Syndrome, que chegou a liderar as preferências nas pesquisas. O problema surgiu quando a sigla resultante foi avaliada: EMOS é um termo fortemente associado a uma subcultura jovem. Outro candidato caiu por razão diferente: sua sigla já pertencia à Síndrome Respiratória do Oriente Médio. 

3. Por que SOMP? A lógica de cada palavra

Ao final do processo, o nome escolhido foi Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome (PMOS em inglês, SOMP em português). 

Poliendócrina

A síndrome não compromete o ovário de forma isolada. O que se observa é a disrupção de múltiplos eixos hormonais em simultâneo: o eixo hipotálamo-hipófise-ovário, com aumento da frequência de pulsos de GnRH e elevação do LH; o hiperandrogenismo ovariano e frequentemente também adrenal; a resistência insulínica com hiperinsulinemia compensatória que amplifica a produção androgênica; e as alterações nas concentrações do AMH (hormônio antimulleriano). 

Há ainda um argumento prático: a palavra tem semelhança fonética com “policístico”, o que favorece a transição gradual. 

Metabólica

A resistência insulínica está presente em 85% das mulheres com SOMP, incluindo 75% das pacientes com IMC normal. A hiperinsulinemia que se segue alimenta a produção androgênica e agrava a anovulação, além de ampliar o risco cardiometabólico, que foi provado como sendo clinicamente significativo.

Dislipidemias, hipertensão arterial, diabetes tipo 2, esteatose hepática metabólica: o mapa cardiometabólico da síndrome é extenso. Deixar de nomear esse componente era, em certa medida, uma licença para subestimá-lo na prática clínica.

Ovariana

A disfunção ovariana mantém seu papel central no diagnóstico. Os critérios permanecem os mesmos: irregularidade menstrual ou anovulação, hiperandrogenismo clínico ou laboratorial, achados compatíveis ao ultrassom ou AMH elevado. O que foi removido foi o adjetivo “policístico”, responsável pela ideia equivocada de cistos patológicos. 

Nos workshops, o debate mais intenso girou em torno de incluir “ovulatória” em vez de “ovariana”. A primeira pareceria mais precisa para caracterizar a disfunção funcional. No entanto, o consenso caminhou para “ovariana” por ser mais abrangente, já que a disfunção do ovário inclui a questão folicular, o hiperandrogenismo local e a produção de AMH, e persiste muito além do período reprodutivo, enquanto “ovulatória” ficaria semanticamente restrita.

SOP vs. SOMP: o que muda e o que permanece

SOP (nome antigo)

SOMP (novo nome)

Nome completo: Síndrome dos Ovários Policísticos

Nome completo: Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina

Sigla: SOP / PCOS (inglês)

Sigla: SOMP / PMOS (inglês)

Foco do nome: Morfologia ovariana ao ultrassom

Foco do nome: Disfunção endócrina, metabólica e ovariana

Critérios diagnósticos: Rotterdam 2003 

Critérios diagnósticos: Rotterdam 2003 (sem alteração)

Origem da nomenclatura: Consenso de Rotterdam, 2003

Origem da nomenclatura: Consenso Global, The Lancet, maio de 2026

4. O que não muda: a parte que mais importa para a prática clínica

Atenção, Doc:  apenas a nomenclatura foi alterada. Critérios diagnósticos, fisiopatologia e abordagem terapêutica permanecem idênticos.

O diagnóstico de SOMP continua apoiado nos mesmos três pilares que você já conhece: disfunção ovulatória (irregularidade menstrual ou anovulação), hiperandrogenismo clínico ou laboratorial, e achados ovarianos compatíveis ao ultrassom ou AMH elevado. Para mulheres adultas acima de 20 anos, dois dos três critérios são suficientes. Para adolescentes, a presença simultânea dos dois primeiros é obrigatória. 

No consultório, isso se traduz também na continuidade do tratamento. Anticoncepcionais combinados, metformina, mudanças no estilo de vida, indução de ovulação quando indicada, tratamento do hiperandrogenismo e rastreio metabólico periódico são recursos que seguem exatamente os mesmos. 

5. Impacto clínico além do consultório

Para as pacientes

Estima-se que até 70% das mulheres com SOMP permanecem sem diagnóstico e que parte considerável dessa subnotificação tem relação direta com a nomenclatura antiga. Quando uma paciente chega sem o padrão ovariano ao ultrassom, o médico menos familiarizado com a síndrome tende a descartar a hipótese com mais facilidade. Um nome que não remete a ovários policísticos pode ampliar o raio de suspeita diagnóstica, especialmente entre generalistas e pediatras.

A diminuição do estigma é outro ponto crítico, já que uma nomenclatura centrada em ovários e, por extensão, em fertilidade, carrega peso emocional e social muito desigual em diferentes culturas. Em contextos onde a capacidade reprodutiva é vista como atributo fundamental da mulher, receber um diagnóstico que parece reduzir o problema à esfera reprodutiva pode ter consequências psicológicas reais. 

Para pesquisa e políticas públicas

A SOMP é cronicamente subfinanciada, considerando o que sua prevalência justificaria. Afeta uma em cada oito mulheres em idade reprodutiva, representando mais de 170 milhões de pessoas globalmente. A hipótese dos próprios autores do consenso é que o nome equivocado contribuía para esse subfinanciamento: uma condição percebida como "problema de ovário" tem dificuldade estrutural de competir por recursos com doenças reconhecidas como metabólicas e cardiovasculares.

6. Críticas e limitações: o consenso não foi unânime

Nos workshops, dois participantes se opuseram formalmente à mudança, alegando que a ciência genética da síndrome ainda está em evolução, que existe a possibilidade de um fenótipo masculino da condição e que os riscos de uma mudança de nomenclatura não foram suficientemente ponderados. 

Há também uma limitação metodológica que os próprios autores reconhecem: a participação de países de baixa e média renda, especialmente da África, Ásia e América do Sul, ficou aquém do desejado. Os autores reportam que a análise por região não identificou diferenças relevantes nas preferências, mas o ponto permanece como limitação a ser considerada.

A limitação mais imediata para o dia a dia é o fato de que os dois nomes coexistirão por três anos. Durante esse período, SOP e SOMP aparecerão simultaneamente em prontuários, artigos, encaminhamentos e conversas clínicas. Isso exige do médico assistente uma dose extra de atenção na comunicação, sobretudo com pacientes que já têm o diagnóstico há anos e podem estranhar a troca de nomenclatura.

Na prática: como transitar para o novo nome

  • Explique para a paciente que o diagnóstico não foi alterado. O que mudou foi o nome, para refletir melhor a complexidade real da condição.
  • Em novos laudos e encaminhamentos, adote SOMP (ou PMOS em publicações internacionais), com a equivalência à SOP entre parênteses.
  • Use a transição como oportunidade para reforçar o componente metabólico no acompanhamento: resistência insulínica, perfil lipídico, pressão arterial e risco cardiovascular merecem atenção sistemática.
  • Não há indicação de reavaliar pacientes já diagnosticadas. Os critérios são os mesmos.

Considerações finais

A mudança de SOP para SOMP marca o encerramento de uma discussão que atravessou mais de uma década. Embora os critérios diagnósticos e o tratamento permaneçam inalterados, a nova nomenclatura reflete uma compreensão mais ampla da síndrome e das múltiplas dimensões envolvidas em seu acompanhamento.

Para quem está na prática clínica, o impacto imediato será pequeno. O verdadeiro teste acontecerá nos próximos anos, à medida que a nova terminologia for incorporada às diretrizes, aos prontuários, à pesquisa e ao ensino médico. É nesse processo que ficará mais claro se a mudança conseguirá ampliar o reconhecimento da síndrome para além da saúde reprodutiva e fortalecer a atenção aos seus desdobramentos metabólicos e cardiovasculares.

Por enquanto, a principal mensagem para profissionais e pacientes é simples: quando a linguagem acompanha melhor a ciência, todos ganham um pouco mais de clareza. E, a partir de agora, o desafio será descobrir se um novo nome também pode ajudar a produzir um novo olhar. 

Referências

1. Teede HJ, Bahri Khomami M, Morman R, et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. Lancet. 2026;407:2329-2339. doi:10.1016/S0140-6736(26)00717-8

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